Centro de Medicina Psicossomática e Psicologia Médica
Hospital Geral da Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro

Alterações da Sensopercepção
 

Definições
É a sensopercepção que permite a aquisição dos elementos do conhecimento procedente do mundo exterior e do mundo interior, orgânico e psíquico. Ela requer a participação dos cinco sentidos externos (olfato, tato, visão, audição e paladar), dos sentidos internos (cenestésico, cinético e de orientação) e a percepção do mundo mental pela consciência.
Sensação é o elemento primário da senso-percepção. É o registro, na consciência, da estimulação produzida em qualquer dos aparelhos sensoriais. Elas podem ser externas (refletem propriedades e aspectos isolados das coisas e fenômenos que se encontram no mundo exterior) e internas (refletem os movimentos de partes isoladas do nosso corpo e o estado dos órgãos internos). As sensações internas são de 3 tipos: motoras ou cinéticas (nos orientam sobre os movimentos dos membros e do nosso corpo), de equilíbrio (provém da parte interna do ouvido e indicam a posição do corpo e da cabeça) e orgânicas ou proprioceptivas (se originam nos órgãos internos). Cenestesia é o conjunto de sensações, muito vagas e indiferenciadas, que nos dá o sentimento de bem-estar.
Imagem é a representação mental de um objeto registrado e percebido através de um dos mecanismos senso-perceptivos.

Imagens sensoperceptivas normais
- imagem sensorial ou perceptiva: é aquela obtida pela observação direto do objeto. Suas características são: nitidez, corporiedade, projeção para o exterior, fixidez e não ser influenciada pela vontade;
- imagem consecutiva: é a persistência da imagem sensorial depois do desaparecimento do estímulo, quando este é muito intenso. Ela perde rapidamente a ntidez, a corporiedade e a projeção passa para o espaço subjetivo, sendo que a vontade pode reavivá-la e/ou transformá-la;
- imagem mnemônica: é a imagem da recordação evocada pela memória. É muito instável e influenciada pela vontade, além de ser pouco nítida e sem corporiedade;
- imagem fantástica ou confabulatória:  é produto da imaginação. Ela ocorre sem objeto, é sem nitidez, sem corporiedade e muito influenciada pela vontade;
- imagem onírica: forma o conteúdo dos sonhos. É de origem menmônica ou imaginativa;
- imagem pareidólica: criada pela imaginação e originada a partir de imagens reais (ex.: nuvens, manchas etc.).
De acordo com a Psicologia da Forma (Gestalt), o ato perceptivo consiste na apreensão de um totalidade, de natureza específica, cuja organização, do ponto de vista funcional, não representa a simples adição de elementos locais e temporais captados pelos órgãos dos sentidos. Percepção corresponde ao ato pelo qual tomamos conhecimento de um objeto do meio exterior considerado como real, isto é, como existente fora da própria atividade perceptiva. Leva à apreensão de uma situação baseada em sensações, acompanhada de representações e freqüentemente de juízos, num ato único, o qual só pode ser decomposto por meio de análise.

Psicopatologia da sensopercepção
1- Variações normais
Diminuição da sensibilidade pela fadiga da atenção
Percepção mais ativa e mais clara por treinamento específico
Maior claridade perceptiva por maior interesse e maior concentração da atenção

2- Alterações quantitativas das sensações
Hiperestesia: é o aumento da intensidade das sensações;
Hipoestesia: é a diminuição da sensibilidade aos estímulos sensoriais;
Anestesia: é a abolição de todas as formas de sensibilidade;
Analgesia: perda da sensibilidade à dor, com a conservação das outras formas de sensibilidade;
Agnosia ou falta de conhecimento: por lesão (periférica ou central) dos aparelhos perceptivos.

3- Alterações qualitativas da sensopercepção
Ilusões: é a percepção falseada ou deformada de um objeto real, cujas causas são: debilitação da atenção ou exaltação emocional (ilusão catatímica);
Aberrações perceptivas: consiste no fato de se emprestar cores inusitadas aos objetos exteriores, comumente causadas por drogas;
Alucinações: é produto de um juízo alterado, o qual cria uma viva representação originada numa imagem de recordo ou da fantasia, a qual é projetada no exterior e aceita como real, como um produto de uma captação sensorial. Seus mecanismos podem ser: psicológicos ou neurológicos. Seguindo F. Alonso-Fernandes (Fundamentos de la Psiquiatria Actual, 2ª edição; Editorial Paz Montalvo, Madrid, 1972), são três os tipos de vivências alucinatórias: as alucinações verdadeiras, as alucinoses e as pseudoalucinações.
                  
Alucinações verdadeiras:
                           
- alucinação sensorial: auditivas, visuais, táteis, olfativas, gustativas;
                           
- alucinação cenestésica: se referem aos sentidos internos;
                           
- alucinação cinética: relacionadas a movimentos do próprio corpo;
                           
- alucinação psíquica: é uma intensa representação sem exteriorização e sem consciência de
                                     que é produzida na mente. São pensamentos e palavras que se impõem como ordens;
                           
- alucinação verbomotora: sensação de que outras pessoas falam por intermédio da própria
                                     pessoa;
                         
- alucinação hipnagógica: na passagem vigilia-sono, quando há diminuição da lucidez de
                                     consciência;
                         
- alucinação extra-campina: são alucinações visuais que ocorrem foram do campo visual da 
                                     própria pessoa;
                         
- eco ou sonorização do pensamento: é a sensação de ouvir os próprios pensamentos;
                          - alucinação auditiva de observação dos próprios atos: é a sensação de ouvir observações acerca
                                     dos atos que a pessoa está realizando;
                         
- percepção delirante: é a interpretação delirante de uma percepção real.

                   Alucinoses ou alucinações neurológicas:
                        
- alucinose alcoólica: é o estado alucinatório agudo que ocorre nas intoxicações alcoólicas, que
                                    se acompanha de muita ansiedade, mas não desperta nenhuma interpretação delirante,
                                    pois há consciência de que é produzido por uma perturbação determinada;
                       
- alucinose peduncular: é o estado alucinatório de natureza oniróide, caracterizado pelo desfile de
                                   alucinações visuais como um filme cinematográfico, não acompanhado de ansiedade e
                                   nem de interpretações delirantes. Ocorre nas lesões do pedúnculo cerebral. 

                  Pseudo-alucinação: existe consciência de sua formação intra-psíquica e só secundariamente é
                        projetada e referida ao campo senso-perceptivo. São influenciadas pela vontade e pelo conteúdo do
                        pensamento

Clínica
As alucinações são mais frequentes na esquizofrenia. Nesta, as alucinações cenestésicas são as mais comuns, seguidas das alucinações auditivas. A alucinação auditiva de observação dos próprios atos, a sonorização do próprio pensamento e o roubo do pensamento são características da esquizofrenia.
Nas doenças afetivas, são mais freqüentes as ilusões.
Nas Epilepsias predominam as visuais, auditivas e cenestésicas, mas também podem ocorrer estados alucinatórios paroxísticos.
Na embriaguez patológica predominam as alucinações visuais e táteis, e na alucinose alcoólica surgem vozes na terceira pessoa, sempre de conteúdo desagradável.
Nos delírios febris (“delirium”) predominam as visões com imagens oníricas multiformes, de tonalidade afetivas variável. Quanto maior o ofuscamento da consciência, mais comuns são os fenômenos visuais.

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